29.7.09

uma outra dimensão e uma vida paralela

vir parar ao fim-do-mundo ou, se preferirem, onde o vento dá a curva mas ninguém sabe como, é um daqueles momentos da vida que não se esquece. principalmente, sem quaisquer lirismos, não se esquece porque é diferente, porque de repente em vez de se usar cidade se passa a usar vila, quando já não se vive em vilas, nem se as conhecem por mais de um dia de passeio ou duas semanas de férias.

há um centro que nos deixa a dois minutos de tudo, de todos os lugares que interessam e todos os pontos de passagem. são dois minutos para todo lado, menos para casa. a casa não se vai, tira-se férias de tudo o que é real, de tudo o que é nosso, material ou paisagístico, e vive-se numa cama-pequena-sem-guarda-roupa ou cabide para pendurar roupa. a única coisa que aqui está bem pendurada é a dimensão certa, a dimensão que acontece a quantrocentos quilómetros daqui.

aqui, eu sou eu, assim como em qualquer outro lado. nunca há desprendimento às raízes nem ao carácter, para o bem e para o mal. há pontos de euforia que antecedem momentos de desilusão. há histórias imprevistas, laços confusos e relações surrealistas. e estes, sejam as histórias, os laços ou as relações, não são a minha vida. são uma outra, paralela.

fico triste por pensar que, assim como todos os outros momentos do género na vida, este vai ser esquecido, que o aqui se vive vai sobreviver na memória de (apenas) alguns, poucos, mas que não será suficiente para muito mais, possivelmente, por falta de vontade. quando um não quer dois não fazem e quando três querem tudo acontece - aqui está uma verdade absoluta que o minho me apresentou.

tudo passa, são como os hematomas, já dizia o outro. e o outro foi exactamente como os hematomas: inchou, desinchou e passou (ou quase). um mês são trinta dias, ou quarenta, são intensos, são férias-de-verão, são tudo num sítio fechado e pequeno que morre assim que se abandona. e dói um bocadinho pensar que amanhã é como se ontem não tivesse acontecido.

sou incapaz de abandonar a sinceridade e a transparência. chamem-me corajosa, independente, o que for. há que ter tomates para ouvir coisas, verdades, leia-se. e às vezes é difícil, porque não é de todo conveniente, tomar as verdades por mentira, mesmo quando na verdade o são. sou assim: jogo com as cartas na mesa, não há truques, foleiros pelo menos, nem trunfos inglórios, o que se consegue é com esforço ou mérito, mas sempre com orgulho. ou não se subiria de todo.

conhecem-se pessoas que se supõe para sempre, amigas que desiludem, pessoas que não correspondem, vidas que não combinam e carácteres opostos. há entregas momentâneas e perdidas, mesmo que saborosas, há sentimentos que nascem e se têm de matar a sangue frio, como que torcendo o pescoço olhos-nos-olhos, mesmo que completamente embriagados de gin tónico.

continuo a desconhecer se no álcool, mais que no amor ou na doença, se dizem as verdades, se apela ao sentimento ou se se manipula, da mesma forma que sóbrio, tudo o que se atira da boca para fora. desconheço, intrigo-me e sobrevivo com aquele pesar de quem ainda só sobreviveu vinte e oito anos e está cansada de saber que tudo passa, de sobreviver a todos os momentos, os mais felizes e os mais infelizes.

eu queria, queria mesmo acreditar que morreria de morte se um dia me fugisse um daqueles gostar de repente, que o mundo acabasse e me engolia se deixasse de ver alguém, que se caísse podia nunca mais me levantar. o que eu queria, o que eu queria o drama, sofrer e chorar como se amanhã o sol não nascesse se tudo o que eu desejo não acontecer.

mas não, eu sobrevivo, infelizmente.
e isso dói mais mais perder, dói pensar que se se perder não faz mal.
dói pensar que ainda faltam tantos anos de vida para se perderem coisas e chorar presentes que não serão mais que passados.

dói.

a ter em atenção (todos os dias da vida) e colar na porta do frigorífico ou no espelho da casa-de-banho

"Ter a capacidade de se maravilhar ainda quando tudo parece já usado e mastigado, quando os valores que respeitamos e apoiamos descem abaixo do nível de aceitação humana, quando prevalece a indiferença por tudo o que não seja benefício próprio e quando a cadeia de respeito pela dignidade e pela palavra são perdidos, é um atributo só permitido ao verdadeiro criador-artista".
HENRIQUE SILVA

11.7.09

das coisas mais bonitas que ouvi nos últimos tempos

e uma kora que faz magia.

10.7.09

apesar de tudo,

há pessoas que nunca vão saber o que querem ser quando forem grandes. e que nunca vão saber o que responder quando lhes perguntarem o que querem exactamente fazer. ou explicar porque é que tiveram mais trabalhos do que seria previsto na lei da ética profissional, aquela que exclui ou contrata pessoas.

há pessoas que nunca vão saber o que são vinte anos de carreira numa empresa ou, até mesmo, numa mesma actividade. não vão assinar vários contratos de trabalho mais-ou-menos bons, nem ter subsídio de férias ou de natal e, muito menos, e aqui ainda bem, vinte e dois dias úteis de férias por mês. mais os três de bónus.

há pessoas que nunca vão ter famílias de cinema, com um pai, uma mãe e três filhos felizes, mesmo quando infelizes, sentados à mesa. há mulheres que nunca vão ter filhos e casais que se vão separar antes de se prometerem para sempre um ao outro. há outras que nunca serão sempre disponíveis, prontas para amar e com um relógio biológico apertado. há mulheres que nunca terão filhos e homens que nunca serão pais.

há pessoas que nunca vão acreditar poder ser felizes, mesmo depois de o terem sido e mesmo quando até o são. há pessoas que vão continuar a acreditar no pai natal e outras que farão uso do sexo oposto, ou do mesmo, para prazeres espontâneos, não exigindo mais que aquilo que a natureza deles está pronta e preparada para oferecer.

há pessoas que nunca vão querer uma vida estável, nem monótona, nem um emprego na função pública. ou então uma secretária enfadonha com uma secretária grande o suficiente para expor as molduras das suas felicidades.

há pessoas que nunca vão dizer às outras, umas quaisquer, que gostam deles antes que morram. porque há pessoas que vão morrer sem saber que foram amadas ou sem ter podido dizer a alguém que amam que até gostam um bocadinho delas. porque os lugares comuns acontecem e aprender com os erros dos outros nunca é suficiente.

há pessoas que vão continuar a arrepender-se sempre do que não fizeram até terem mais cabelos brancos que de cor. e que vão sempre viver abaixo da linha, sem expectativas ou objectivos. há pessoas que vão ser infelizes porque não acham correcto cortar o cordão umbilical, saltar do precipício ou fazer explodir uma granada nas mãos. há pessoas que vão sempre prezar mais terem uma vida estável a ter vivido no limbo, aventurar-se e ter histórias bonitas, quando não brutais, para contar aos netos, que poderão até nem ter.

há pessoas que não gostam de viajar, aprender línguas ou conduzir. há pessoas que vivem no epicentro de si mesmas e da sua vida. podendo esta ser extraordinariamente enfadonha ou miseravelmente feliz. há pessoas que vão sempre comer o que lhes puserem no prato, que nunca vão pedir o livro de reclamações e vão pedir desculpa por terem opiniões e, sobretudo, por as darem.

há pessoas que nunca vão ser como se supõe nem fazer o que é esperado. outras que vão variar e as que vão quebrar todos os limites e explorar o imaginário. há pessoas que conseguem perceber isto tudo e há as que não percebem, essas, sim, são verdadeiramente pessoas que nunca vão saber que há várias formas de se ser feliz. e crescer.

5.7.09

estamos a fazer malas para um mês

vamos (trabalhar) para cerveira.

milão

abandonámos os vinte e sete em milão naquele que foi dos melhores aniversários de todo o sempre. houve muito amor em milão - em expressões várias - e uma noite perfeita. cinco dias e cinco noites de incessantes celebrações, quase sempre até de manhã e sem sentir o inconveniente dos horários dos transportes públicos. nem os relâmpagos, os trovões ou a chuva, torrencial por vezes, nos demoveu na nossa aventura milanesa.

(hoje falamos, eu e o meu umbigo, no plural porque foi uma história vivida a duas amizades e dois aniversários)

as expectativas não existiam, havia um misto de ir descobrir uma cidade nova e, por outro lado, aquela estranheza da maioria das pessoas nos tentar demover ou desinspirar quando ouviam o destino. perguntavam-nos porquê com razão, até os próprios milaneses se riam quando nos ouviam dizer que estavamos em milão... de férias.

mas a cidade nunca nos desiludiu. vivemo-la de uma forma pouco turística, sem a ânsia constante dos monumentos e pontos turísticos. diria que vivemos milão por intuição, de mapa claro, mas sempre ao sabor do vento, do olho crítico e de gostos particulares.

ainda estou a ressacar milão. acho que nunca senti barcelona da mesma forma.
é aqui que me atrevo a dizer que as cidades são as pessoas, que humanizá-las dá-lhes a forma de casa. senti que é muito fácil sentir-me em casa, em milão.

sei que este sentimento de querer voltar ou, melhor, de não querer ter saído é mítico das férias de verão, na adolescência: uma semana vivida com intensidade, sempre-divertida - primeiro porque eram férias, depois porque o espírito o pedia e ainda porque era tudo novidade -, cheia de coisas e pessoas novas. todos sabemos, porque já tivemos essas férias de verão, que o sentimento passa quando chegamos, demora um bocadinho e deixa o coração pequeno, mas passa. também sabemos que viver num sítio onde se teve uma semana especial não seria, de todo, igual todos os dias do ano, sempre tão cheio.

estou em recuperação. à medida que volto a viver lisboa, a noite, os amigos, os copos e os concertos e os caracóis, vou-me afastando um bocadinho mais das memórias que trouxe. começo, devagarinho, a ficar mais lúcida e menos ébria por tudo o que lá vivi - e queria viver mais vezes, muitas. de qualquer forma, e ainda assim, duvido que o lugar que a cidade tomou de assalto em mim morra. ficou cá para sempre - as cidades são as cidades e as pessoas.

e aqui, especiais saudações ao hugo, por me (nos) ter convidado para a sua festa de aniversário, que acabou também por ser a minha, à rafaela e à andreia (mesmo sem linque) que tive o enorme prazer de conhecer - obrigada!

milão é amor, não foi?
ai (suspiro)...

21.6.09

verão

a partir de hoje.

eu e o meu umbigo (3)

ficamos cegos quando ainda estávamos a crescer. quando recuperámos a visão percebemos que o mundo era já muito diferente. e nós também não eramos nada daquilo que eramos antes de ficar cegos. ou então a cegueira mudou-nos.

andamos a conhecer-nos e gostamos, disso e da companhia um do outro.
e temos muito medo de ficar cegos outra vez.

eu e o meu umbigo (2)

no entanto,

gostamos de flirtar.

eu e o meu umbigo

temos dificuldade nesta coisa de deixar que alguém entre, queira muito, e consiga mesmo levar-nos um bocadinho. ou que nos faça pensar em alguém que não nós dois e que nos peça alguma coisa que está para além da nossa vontade.

também achamos que os amores que vêm depois do primeiro são demasiado geríveis: doseia-se, partilha-se com restrições e pensa-se muito. demais?

não sabemos, eu e o meu umbigo, se estamos preparados para isso.

a existência numa pergunta

e se ser descomprometida for demasiado confortável e fácil para se querer voltar a ter uma relação?

20.6.09

é muito verdade que a forma como os outros nos vêem parte daquela com que nos vemos a nós próprios e, depois, a sabemos transmitir

afinal, está tudo nas nossas mãos.

um, do li, tá

quando menos esperamos - e procuramos até -, das pessoas mais inesperadas em situações pouco prováveis, eis que começam a aparecer, aos pares.

os lugares comuns existem.
mesmo.

19.6.09

santo antónio <3

tenho que deixar isto registado para todo o sempre.
numa palavra: épico.

eis que chego a um daqueles momentos míticos na vida de uma mulher

em que me pergunto: então, mas então maria, o que é que se passa contigo? não te percebo, agora que te aparece um menino querido e fofo que gosta de ti dizes que não há o quê? clique?

ah, está bem.