23.12.08

querido eu,

saíste-me melhor que de encomenda.

eu sei que é difícil desempenhar o papel de que sabemos sempre qual a melhor decisão a tomar, prever que as coisas não vão correr como queremos e arranjar alternativas satifatórias (para nós e para o resto do mundo) ou demonstrar que o futuro está assegurado seja lá porque razão for. é mentira. é difícil arranjar hipóteses satisfatórias quando não sabemos o que queremos e quando pensamos nisso vemos de soslaio a nossa data de nascimento, a carreira ou a família dos amigos, as vidas aborrecidas mas direitas da outra metade do mundo ou mesmo os one-night-stand que ao valerem um orgasmo valeram tão pouco que parece que nunca existiram. de repente um mundo quase-estável transforma-se numa pilha de cacos, em tardes passadas em frente à televisão e ao computador a arranjar que fazer (mesmo não encontrando) e a fazer de tia cujo número de horas se está a tornar inversamente proporcional à minha vontade em ser mãe.

são indizíveis todas as alegrias e sorrisos que ser tia me provoca, as histórias, as brincadeiras, os 'tia, vou-te dizer uma coisa, adoro-te'. noto a forma como me imita, como quer o que quer e faz o que faço, como se fosse um modelo, mas serei? tamanha é a responsabilidade de ter um ser de uma dezena de quilos a achar-nos qualquer coisa que não somos, a ser como nós. como me poderei sentir capaz de ser mãe e ser a base de quem quer que seja senão me consigo orientar a mim mesma? se calhar mentindo. há dias perguntou-me se gostava do pai dela, fixei-a nos olhos e naquele segundo, que era bem mais do que ela esperava que me demorasse a respondar, decidi que mentir seria saudável ali, e disse que sim, ela respondeu que também, que gostava muito.

abro os sites de emprego e questiono-me sobre os paradigmas da sociedade. se a cultura é uma farsa e os museus deviam ser caves a ser visitadas de lanterna e protecção nasal para não inspirar pó. depois pergunto-me porque raio inventam cursos ou sensibilizam pessoas para profissões que já não existem, não por falta de necessidade, mas por falta de dinheiro. foda-se, como é que se diz a alguém que sente que nasceu para uma coisa que não pode tê-la porque estamos em crise, embora seja perfeitamente capaz de o fazer e desempenhar bem? e se em vez de haver sites de emprego houvesse de desemprego, pelo menos aposto que em vez de dez anúncios por dia haveria uns trinta. porque é que inventaram as candidaturas espontâneas, se nunca há um lugar que corresponda ao nosso perfil? e porque é que nunca ninguém, na formação que nos custou muito dinheiro, nos ensinam a ter um plano de emergência, do género, se estudei biologia e não posso ser biólogo será que serei boa a dobrar roupa? e mesmo que seja boa, se for infeliz e miserável sou mais válida porque tenho um emprego e ganho dinheiro?

ai, eu! ai, tu! amanhã é natal, e nós, nem um desejo, nem uma vontadinha a satisfazer. e o ano novo, que vais passar deitada a ver televisão (o ano passado resultou) e quando o dizes chocas os demais, só porque assumes que é como é, e não te iludes com roupas novas e passas e champagne. e resoluções, eu, ou tu, não tens resoluções? espera, calma, tenho duas, um emprego (já que o último que tive deixei-o) e ir viver sozinha, pode ser?

(sei que estavam à espera de um post natalício, depois de tantos dias de ausência, mas acho que mais um ano ou dois e já nem celebro o natal. e todos temos direito a dias depressivos...)

8.12.08

preciosidades

e beijos.

"A kiss could've killed me
If it were not for the rain"


kiss | scout niblett feat. bonnie "prince" billy

querido pai natal, (2)

afinal, afinal, se puder mesmo escolher, quero (muita) má vida e uma casa com piscina em hollywood.

estabilidade

interrogo-me sobre estabilidade, o que é, se quero, quando e o que posso fazer para a ter. estou perdida neste vocábulo, neste estado de espírito, de vida. sei que preciso dela, mais cedo ou mais tarde, só não sei se para mim é tão urgente que tenha de ser agora, já. talvez seja, mas não consigo assumir isso.

tenho descoberto que sim, como já o disse outras vezes, fugir e desistir são formas de vida, depois da luta há que saber perder, sair e bater a porta. pensar no que nos faz sofrer menos e fugir para longe. desistir de estar sempre na linha da frente a apanhar de tudo e de todos. de nunca abandonar o navio. sim, eu acredito nisso, mas a verdade é que fugir torna a dor menos, mas prolonga-a. porque, muito de vez em quando, o que o coração não vê, não sabe e não sofre. vive de suposições e ilusões.

mas para mim arrepender-me do que não fiz é muito pior que não ter estabilidade. talvez quando for velha lamente tudo o que fiz, da quantidade de histórias para contar e das decisões erradas que tomei. mas em mim não há outra forma de viver, eu obrigo-me a tomá-las, ponho-me à prova e aceito-as, porque não aceitá-las não faz sentido, não depois de tudo.

acho que estou mais convencida, que relutante, a aceitar, se se proporcionar, a próxima aventura.

(dia dezenove há novidades...)

querido pai natal,

i'm not a material girl.

1) um marido e uma bela casa nos subúrbios da califórnia:
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2) má vida e uma casa com piscina em hollywood:
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3) amor e uma cabana:
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4.12.08

efemérides

para registo.

- em dezembro de 2004, aquando do tsunami, estava em andorra.
- em abril de 2005, quando o papa joão paulo II morreu, estava em londres.
- em novembro 2008, quando o obama foi eleito presidente dos eua, estava em barcelona.

a verdade é que eu não tenho oito sonhos

em resposta ao desafio da maria eva.

1) quero uma casa com vista para o tejo, de preferência na senhora do monte;
2) quero um emprego que me dê prazer e seja bem pago para poder viajar sempre que me apetecer;
3) e quero ser feliz.

todas as outras coisas - aliás, as duas primeiras também, mas escolher pelo menos três fica-me bem - cabem no ser feliz, que uma mulher para ser feliz precisa de condições, claro está. mas admito, como de resto já o fiz anteriormente, que ganhar o euromilhões e outros desejos que tais me transcendem o horizonte dos sonhos. tudo o que depende exageradamente de sorte me assusta e parece irreal, prefiro sempre o atingível, aqueles sonhos-acordados que um dia, eventualmente, podem ser concretizados e que dependem muito mais de nós que da sorte ou do azar.

mixed feelings

estou de ressaca e um bocado apática.
não sei, é a única resposta que tenho para quase tudo.

perguntam-me se não consigo resolver a minha vida, se calhar é isso, não consigo.

do regresso aos braços da minha sobrinha

ela diz: tenho um quarto novo.
e eu (que já sei) pergunto: sim? e de que cor é?
ela: amarelo... como...
(enquanto isto eu penso no sol, só podia ser o sol!)
ela continua: é amarelo como os teus dentes...

'tá bem sobrinha, a tia perdoa-te, lá para a outra encarnação!

2.12.08

nasty monday

quem leu o último post a achar que o título resumia a minha estadia em barcelona que se desengane, mesmo. jamais podia dizer isso destes quase-dois-meses.

sinto-me dividida, por um lado tenho muita vontade voltar, por outra tenho pena por não ficar. não sei se este regresso a portugal será apenas temporário ou deifnitivo, ainda há-de haver muita água a passar debaixo da ponte antes de isso ser uma certeza. por isso despeço-me com um espírito de quem regressa merecidamente a casa e que, se as coisas mudarem, volta mal possa - e afinal ainda que esporádico tenho um trabalho à minha espera em janeiro.

o curso acabou hoje. podia falar horas da sessão de hoje, mas não me apetece, cabe-me apenas elegê-la das mais interessantes do curso.

acabo de chegar de mais uma nasty monday na apolo, sempre a rockar e com os mesmo de sempre, os quais que ainda que tendo potencial, não chegaram a ficar amigos. quase-dois-meses não dá para muita coisa, mas deu para conhecer a cidade, as pessoas, as modas, as lojas, o tempo, os momumentos, os caminhos a pé, o metro - pelo menos parte -, alguma noite e algumas tapas, bocadillos e cañas.

no caminho de regresso compro o meu último kebab na catalunha, por agora, digo três ou cinco ou seis vezes 'no, gracias' aos paquistaneses que vendem cerveja de lata na rua, a um euro. uma-talvez-prostituta comenta comigo que está muito frio e eu aceno e repito que sim, que está muito frio; o senhor da bcneta, como quem diz o gajo da câmara que anda a limpar as ruas, pergunta-me se o caramelo estava bom, e eu respondo que sim, depois pergunta-me se é um caramelo e eu digo que é um kebab, mas que estava muito bom. a cada resposta-ainda-por-cima-bem-educada, pergunto-me se faria o mesmo em lisboa se encontrasse seis indianos no caminho a casa a querer negociar comigo o valor das rosas; se o gajo da câmara me perguntasse sobre o que comia, ou se uma prostituta no martim moniz metesse conversa comigo. a resposta soava-me sempre a não, a, inacreditávelmente, não. não sei se é hipocrisia, se é a segurança que sinto nesta cidade, se é a vontade de ter uma vida diferente e ser educado e responder a perguntas e atravessar apenas quando o sinal está verde, não sei. sei que aqui, é possível sentir-se a sensação de que mesmo no regresso de uma nasty monday a vida pode ser realmente boa, longe de tudo e de todos, mas boa.

eu sei que vim para aqui por alguma razão e que daqui a pouco tempo ela é capaz de me assaltar novamente, ainda não estamos em paz, eu e a minha vontade, mas por ora, devo dizer, sinto-me levemente e felizmente saciada.

até já.