10.7.09

apesar de tudo,

há pessoas que nunca vão saber o que querem ser quando forem grandes. e que nunca vão saber o que responder quando lhes perguntarem o que querem exactamente fazer. ou explicar porque é que tiveram mais trabalhos do que seria previsto na lei da ética profissional, aquela que exclui ou contrata pessoas.

há pessoas que nunca vão saber o que são vinte anos de carreira numa empresa ou, até mesmo, numa mesma actividade. não vão assinar vários contratos de trabalho mais-ou-menos bons, nem ter subsídio de férias ou de natal e, muito menos, e aqui ainda bem, vinte e dois dias úteis de férias por mês. mais os três de bónus.

há pessoas que nunca vão ter famílias de cinema, com um pai, uma mãe e três filhos felizes, mesmo quando infelizes, sentados à mesa. há mulheres que nunca vão ter filhos e casais que se vão separar antes de se prometerem para sempre um ao outro. há outras que nunca serão sempre disponíveis, prontas para amar e com um relógio biológico apertado. há mulheres que nunca terão filhos e homens que nunca serão pais.

há pessoas que nunca vão acreditar poder ser felizes, mesmo depois de o terem sido e mesmo quando até o são. há pessoas que vão continuar a acreditar no pai natal e outras que farão uso do sexo oposto, ou do mesmo, para prazeres espontâneos, não exigindo mais que aquilo que a natureza deles está pronta e preparada para oferecer.

há pessoas que nunca vão querer uma vida estável, nem monótona, nem um emprego na função pública. ou então uma secretária enfadonha com uma secretária grande o suficiente para expor as molduras das suas felicidades.

há pessoas que nunca vão dizer às outras, umas quaisquer, que gostam deles antes que morram. porque há pessoas que vão morrer sem saber que foram amadas ou sem ter podido dizer a alguém que amam que até gostam um bocadinho delas. porque os lugares comuns acontecem e aprender com os erros dos outros nunca é suficiente.

há pessoas que vão continuar a arrepender-se sempre do que não fizeram até terem mais cabelos brancos que de cor. e que vão sempre viver abaixo da linha, sem expectativas ou objectivos. há pessoas que vão ser infelizes porque não acham correcto cortar o cordão umbilical, saltar do precipício ou fazer explodir uma granada nas mãos. há pessoas que vão sempre prezar mais terem uma vida estável a ter vivido no limbo, aventurar-se e ter histórias bonitas, quando não brutais, para contar aos netos, que poderão até nem ter.

há pessoas que não gostam de viajar, aprender línguas ou conduzir. há pessoas que vivem no epicentro de si mesmas e da sua vida. podendo esta ser extraordinariamente enfadonha ou miseravelmente feliz. há pessoas que vão sempre comer o que lhes puserem no prato, que nunca vão pedir o livro de reclamações e vão pedir desculpa por terem opiniões e, sobretudo, por as darem.

há pessoas que nunca vão ser como se supõe nem fazer o que é esperado. outras que vão variar e as que vão quebrar todos os limites e explorar o imaginário. há pessoas que conseguem perceber isto tudo e há as que não percebem, essas, sim, são verdadeiramente pessoas que nunca vão saber que há várias formas de se ser feliz. e crescer.

6 (liberdade de expressão):

Ana said...

Gosto mesmo muito de te ler. Pela mensagem que transmites e pela maneira como escreves :)
Beijinhos

PS: eu acho que sou daquelas pessoas que só está bem onde não está.

S said...

são os pensamentos que me assaltam, sou um bocadinho de todas as contradições que escrevi.

salvo excepções, a minha insatisfação permite-me saltar e procurar sítios onde gosto de estar. nunca estou muito tempo num sítio onde não estou bem.
mas quero tudo, tenho uma vontade voraz de fazer e viver mil e uma coisa.

obrigada, ana! mesmo e muito. :)
vou-te agradecer com um vídeo, deixa-me ver se consigo postá-lo.
(ficaste fã do bon iver não ficaste?)

beijinhos,
s

Vida said...

Adorei ;)
Beijinho, querida *

Rafaela said...

extraordinariamente bem escrito.
acrescento:
há pessoas que escrevem e discorrem nos seus blogues pensando que se trata apenas de pensamentos privados e descargas de emoção pessoais, mas que influenciam o leitor de tal forma que as palavras escritas bailam durante horas na sua cabeça. pessoas como tu. :)

S said...

obrigada, vida. beijo! :)

rafaela, que grande, obrigada. na verdade é como dizes, fazemos descargas emocionais e acabamos a tocar os outros inesperadamente... lindo isso. :) para a semana estou em lisboa: minis e caracóis? :)

Este Blogue precisa de um nome said...

Gostei. Fez-me bem ler isto. Obrigada.