lembro-me do vazio desconcertante e das lágrimas que não vinham e secaram por quase dois anos, como se tudo o que tinha chorado nos últimos fosse suficiente por mais dois.
e com o peito cheio de nada lembro-me de fazer força para chorar ou de lhe bater como se isso ajudasse a expelir a dor pelos olhos, como se fosse só um fusível com mau contacto ou uma lâmpada mal apertada. nem assim. não houve uma lágrima que vertesse por alguém que tinha morado em mim durante cinco anos. não houve saudades. nem sequer houve carinho, nem sorrisos de soslaio na auto-partilha de memórias que, por razões que me trancendem, variavam entre as más, as muito más e as terríveis, como se nunca tivesse havido um dia feliz a recordar. e isso foi triste. o mais triste, diria. pior que um amor que acabou é um amor destruído, é um amor que destruiu tudo e devastou a memória e a fonte que nos faz exteriorizar alegrias desmesuradas ou tristezas profundas. um amor que não se consegue já sentir, nem recorrendo ao passado.
e ficava deitada na cama, calada, no silêncio a pensar porquê. porque é que não chorava, porque é que não sentia falta, porque é que nada em mim reclamava a presença de alguém que tinha sido tudo. como é que alguém que foi tudo podia ser tão nada. nessa altura ainda não sabia porquê.
percebi que, quando não se é dramático gratuitamente e em dias de sofrimento e desilusão imensas, quando se diz que alguém para si morreu não é necessariamente porque a matou e que a sua culpa é a de homicídio em primeiro grau, o que em alguns estados transatlânticos resultaria em pena de morte. não é. quando se diz isso é porque depois de permissivos episódios alguém que julgamos ainda amar opera o golpe final, em si mesmo. como a gota de água que faz transbordar. como se ao por um dedo do pé que fosse no sítio errado nos roubasse qualquer alegria ou carinho em mantê-la viva dentro de nós. e o que a matou, neste caso, foi ela própria e não nós. o que nós fizemos foi apenas acolher e aceitar - porque não nos coube poder escolher - que essa pessoa não cumprisse o necessário para ocupar o bunker mais mal amanhado das nossas entranhas.
depois desse dia, há um luto sem corpo e sem campa. é como se todos os cantos de nós e da cidade, qualquer uma, fossem perfeitos para rezar por ele, mesmo que em pensamentos apenas e pouco religiosos. como se a morte nos perseguisse e ficasse em nós, vivesse mesmo morta, sem quaisquer limites geográficos.
nesses tempos tenta desconstruir-se, tenta amenizar-se o desprezo, que não é voluntário, e recuperar qualquer coisa. pequena que seja, tenta-se. e ponderam-se cenários e hipóteses. não porque é importante, mas porque foi e porque pior que ver morrer um amor, é ver o amor matar duas pessoas e levá-las para longe uma da outra, quando antes tudo o que queriam era apenas estar juntas.
descubro a cada dia que não. que não há perdões, nem reconciliações, nem aproximações quando os amores se enganam pelos ângulos mais básicos de uma amizade que se suponha ser a base de muita coisa. não pode haver, mesmo que em determinados dias tente pensar que pode. e não preciso que ninguém me convença do contrário e diga que vou ver, que depois passa. já passaram três anos, não há alegrias mas também não há tristezas. a indiferença apoderou-se de mim e pouco posso, ou sequer quero, contra ela. a vida às vezes é mesmo assim.
foi um grande amor, foi o (de mim) o maior e mais épico dos amores. viveu no seu tempo, na loucura e na cegueira. fez-se homem e cresceu, esse amor, e lutou até ao último dia. não há ses agora. tudo o que tinha de acontecer aconteceu e morreu.
amén.
31.5.09
a despropósito
Etiquetas: introspecção
29.5.09
se perguntarem por mim
digam que estou bem, obrigada.
às vezes, como hoje, tenho medo, mas acho que é porque me sinto feliz.
e porque tenho saudades.
Etiquetas: introspecção
28.5.09
este ano há promessas que se cumprem
dois mil e nove promete ser um bom ano, pelo menos um ano de expectativas - e andávamos a precisar disso por aqui, ansiedades:
finalmente comecei a emagrecer e a levar a sério aquela coisa da força-de-vontade e de fazer um esforço e de pensar-duas-ou-três-vezes antes de comer bombas calóricas. com a devida vénia à falta de apetite e felicidades várias que enchem os olhos, e a barriga, lá está.
daqui a menos de um mês embarco com destino a itália e celebro por milão o meu vigésimo oitavo aniversário. cinco dias, duas amigas-aniversariantes com vinte e quatro horas de diferença e duas datas para festejar: vai ser bonito, vai.
Etiquetas: introspecção, viagens
7.5.09
sem título 22
não vai haver nada a recordar, o olhar, o tempo que fazia, o restaurante ou a ementa, a rua onde trocamos o primeiro sorriso cúmplice ou a primeira vez que, por vontade mútua, nos abraçamos só porque sim. o primeiro beijo?
se amanhã tudo morrer, não vai haver nada a recordar.
o que apesar da tristeza suposta, implícita e é verdadeira, seria uma morte perfeita.
Etiquetas: esquissos
4.5.09
eu sei que o que escrevo faz pouco sentido
e é desconexo.
mas é exactamente isso.
é mesmo assim que eu (e)s(t)ou hoje.
Etiquetas: introspecção
às vezes sonhamos a própria vida
o emprego. os amores. até a família, mesmo sendo plena de imutabilidade. projectamos, ambicionamos, lutamos pelo que queremos, mesmo quando o que queremos são meros caprichos (que também valem) ou utopias não-existenciais.
por outro lado, na sucessão de actos e gestos no mundo - mesmo que cada um viva no seu - as coisas acontecem. e quando digo coisas digo tudo, o que é e o que não é nomeável. acontecem como um meio ou como o fim (se calhar acontecem porque sim, um dia destes volto a convencer-me disto), mas quando damos por elas já aconteceram, mudá-las é impossível, fugir-lhes é uma ilusão. e continuamos a projectar e a sonhar acordados, a achar que desta vez é que é, que será como planeamos, as pessoas que conhecemos - e as que nunca vimos -, no dia em que seria provável e da forma, que embora pouco perfeita, é exactamente concebida à nossa imagem e ilusão.
e a vida, querida eu, não é assim. é como é, depende de nós, mas quando percebemos isso já é pretérito perfeito. o presente é uma espécie de ontem à dois minutos.
e se o que acontece é o que é, será menos mau só porque não é como achamos que seria melhor para nós? sabemos realmente o que é melhor para nós.
não sei, mas respiramos.
Etiquetas: introspecção
a excepção à regra
(mais um dos que se escrevem encriptados, que hoje nem todos percebem e amanhã nem eu)
porque as dúvidas subsistem na (ténue) fronteira entre o que é suposto e o que acontece na realidade. e nunca se sabe, nunca se sabe se as teorias se aplicam ou se as excepções complicam. se suspendem momentos ou alimentam ansiedades. e na verdade pouco importa, mesmo quando parece importar, porque se se soubessem todas as teorias viveríamos muito menos alegrias.
por via das dúvidas, eu gosto das excepções à regra.
e mesmo que disser que quero saber qual é a teoria (e a procure, a analise e a tente desconstruir), não quero, quero antes ser uma iludida desiludida que uma desiludida que não se permite iludir.
(espero eu).
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