4.12.10

já tive dias melhores

ou manias.

se há coisa que eu não gosto de ouvir, e dizer, é: vou indo, quando se pergunta a alguém como está. o que é 'vou indo'? 'vou indo', parece-me sempre um peso que se leva nas costas, uma coisa insuportável que sabemos que não desaparece e que, por isso, as pessoas caminham devagar e pesarosamente. parece que não se está bem, mas que não há nada que se possa fazer para estar melhor. ou então é a forma como as palavras me soam.

depois há outra: 'tudo bem?'. lembro-me sempre daqueles folhetos mal amanhados dos professores desta vida que curam coisas: 'tem problemas no trabalho? de saúde? dinheiro ou amor?', ou seja, que é que nesta vida, que o pai e a mãe nos entregou, não tem um destes problemas? todos, a pergunta que o professor faz é: há sempre alguma coisa que não está bem ou, pelo menos, tão bem quanto desejaríamos que estivesse, por isso aquele folhete é para quase - sim, há os afortunados - todos os comuns mortais que pisam o planeta terra e se vêem confrontados a receber aquele folhete e pensar que, sim, a sua vida está bem, mas não está tudo bem. para despachar, porque o que interessa é ser educado, as pessoas perguntas: 'então, tá tudo bem?', ora, pelo que acabo de escrever é - em 90% dos casos, vá - conseguir responder 'sim' a este tipo de perguntas. no entanto, que alternativas temos? 'está tudo bem?' implicada uma resposta 'sim' ou 'não', qualquer adenda que se faça à primeira palavra é querer impor, praticamente, uma resposta que não nos foi pedida. a maioria das vezes só pergunto isso quando estou a trabalhar, porque não é suposto ninguém do outro lado contar-me a sua vida. a maioria das vezes pergunto: 'como estás?' e afins, perguntas abertas que permitem e, verdadeiramente, esperam saber como é que a outra pessoa está. verdadeiramente na maioria das vezes, pelo menos. mas eu dou uma hipótese às pessoas de pensarem se estão bem ou estão mal e como é que estão. não lhes faço apenas reflectir e depressa chegar à conclusão que, sim, não está tudo bem.

é aqui que quero chegar: não está tudo bem e não vou indo. porque, à excepção de verdadeiras entradas a pés juntos que derrubam qualquer um, por norma tenho sempre aquele espírito de quem não baixa aos braços e pensa sempre no passo a seguir. o que quero dizer é que, e acabo de o perceber, que se não me partirem o coração eu até me levanto com facilidade e tento, quando as coisas não correm bem, que corram um bocadinho melhor. nesses dias de desgraça amorosa, sim, eu choro pelos cantos, ou todas as noites, e vou indo porque não posso dormir até passar essa dor. ainda assim, vou tentar usar outra expressão qualquer: 'estou mal, mas eu sei que vai ficar tudo bem', soou-me sincero, acho que é isto que vou responder.

chegámos a outra daquelas alturas da nossa vida: puxam-nos o tapete e lá temos nós de nos desenrascar por qualquer lado. um amigo meu dizia, ontem, para traçar o plano a, b e c. ele tem toda a razão. estás coisas deviam ser delineadas estrategicamente. e, quem por aqui passa há uns tempos (como quem diz anos) sabe que a melhor coisa que me podem fazer na vida é puxar o tapete, é precisamente nessa altura que a acção começa e eu acordo mais depressa.

portanto, é isso mesmo que venho dizer: não está tudo bem. não vou indo. mas já tive melhores dias. e, sim, vai ficar tudo bem.

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